"Eu mato-a!", foi provavelmente a frase que mais lhe ouvi, quando se dirigia a mim.
Na verdade, "matava-me" umas sete vezes ao dia, sempre com um sorriso nos olhos e o dos lábios escondido pela farta barba. Mantinha o ar sério para que eu pensasse que o tom era intimidatório.
Com ele aprendi a pensar. A pôr em causa tudo, a desconfiar da informação fácil, a desacreditar a facilidade das fontes.
Com ele aprendi a impôr ideias, a trabalhar mais e mais e aprendi que o saber pode ser a nossa maior arma.
Brigávamos todos os dias enquanto trabalhámos juntos. Pelos horários que ele nunca cumpria e os anexos que me esquecia de juntar aos e-mails. Conversávamos todos os dias e eu aprendia sempre mais.
Sentámo-nos os dois a escolher o meu mestrado. Depois sentámo-nos para falar de Política Externa. Da última vez, sentámo-nos a discutir a minha tese. "Avise-me que quero lá estar na plateia!".
Eu queria que ele estivesse na mesa do júri. Para acabar com o meu trabalho e no final reconhecer que eu tinha seguido os seus conselhos.
Eu queria levar-lhe o jornal que peguei no arquivo há 3 semanas, porque ele mo tinha pedido. Pensei que teria tempo de lho entregar quando chegasse a Portugal.
Mas o que eu queria mesmo era poder ouvir aquela frase mais uma vez! E outra...porque essa frase me fez melhor. Despite of all...
Eu cá não acredito nessa História de que "Ah, o destino quis assim!".
Quem disse que o destino tem querer? Ele faz aquilo eu mesmo, com, obviamente, direito a algumas casmurrices a que o título de destino lhe dá direito. Se nao, vejamos:
Na vida da F. os tormentos começaram aos 10 anos. A miúda ainda nem sabia escrver decentemente e já estava com vontade ser anorética à custa da conversa idiota da nutri. Pois que não se deu por vencida. Com as tonterias e a boa disposição de sempre, a F. tornou-se numa das miúdas mais giras que eu conheço. Com cm a mais ou a menos, lá anda ela a passear-se vida afora. "Ah e tal que ela nãodeve ser muito inteligente!"As miúdas giras nunca são muito". MENTIRAAAAA! Por ironia do destino (amigo do peito) ela é mega inteligente, PIMBA!
E porque pode (quando se alia a inteligência à força de vontade tudo se pode), foi dar umas voltas pelo mundo para mostrar ao Sr. Destino quem é que manda ali! Pois então!
E o R.? O R. tinha tudo para ser uma criança mimada, sem grandes objectivos de vida a não ser os disparates de criança que eu adoro (o destino também gosta, porque acha sempre que os consegue controlar). FALSO. O R. é espertíssimo, trabalhador diligente, sensível a puxar para o intelectualóide!(Ahaha). Andou pela Europa e até foi para o outro lado do oceano porque a Europa lhe pareceu pequena. E o R., que até pode parecer estouvado é afinal uma pessoa com os pés bem assentes na terra, "porque o destino assim quis!" Nanananana! Porque ELE quis e o destino não teve outro remédio se não dar-se por vencido.
O mesmo vale para a T. A T. é pequenina e discreta. Uma senhora, no matter what. Para muitos, a T. teve muita sorte na vida. Pouco precisava de fazer - dizem - para ser bem sucedida. Mas ela, que gosta de prega partidas ao destino, pensou: "isso é que era bom!!Naaaaa...eu não me fico". E foi vê-la escolher curso, trocar de curso, escolhar uma profissão , trocar de profissão, tirar mestrado numa coisa totalmente diferente...um conjunto e coisas que até a nós, amigos, deixou baralhados. Imaginem, portanto, como estará o destino!
"A menina nunca deve ter muitas dificuldades na vida", disseram-lhe uma vez. E eis que se solta o carneirinho que há nela e foi vê-la como gente grande, a mostrar quem mandava em quem. O destino meteu o rabo entre as pernas e lá foi ele, envergonhado que estava com aquela sua falta de influência e poderio.
Depois há o L., também. Um doce de menino, com uns olhos de malandro que parece que só faz na vida o que a vida quiser dele. MENTIRA. O L. é uma das pessoas mais dedicadas e responsáveis que eu conheço. Aliás, ambas as coisas em tão grandes medidas que chega a ser irritante. O próprio destino se irrita com ele, porque o raio do rapaz é tão teimoso que por mais voltas que se dê, ele é que dá sempre a volta ao destino. Uma chatice. Ou não. Porque o L. decide fazer o seu destino, pede conselhos aos amigos mas não deixa de seguir o coração. E é isso que tem graça. o "Príncipe do Luxemburgo" tomou as rédeas do seu reino e é vê-lo, todo contente, a vencer na vida que o destino fez questão de lhe encher de obstáculos.
E por fim a M.T. Em quem eu penso sempre que preciso de ter força. Que me vem à lembrança sempre que alguma pedrita decide alojar-se no meu sapato. Porque a M.T. viu o idiota do destino fazer-lhe um muro na sua frente. Viu-o colocar, pedra por pedra, as dificuldades do caminho. Só que ele meteu-se com a pessoa errada que ela também não é pessoa de se ficar. Ela arregaçou as mangas, deu uns pulinhos e pôs-se ao trabalho para trocar as voltas do nosso amigo. E se alguém pensava que lá porque ela não fala muit (mentira, fala sim;P) ela não era capaz de dominar o mundo!, eu cá sei que ela domina o mundo, o destino e até a conjuntura dos astros. E por isso é que eu me lembro sempre dela. Para me lembrar de que é possível, sempre, derrubar as armadilhas destinadas.
O destino que se cuide, porque os seus dias estão contados. Como os meus amigos!Eles estão contadinhos mas são os melhores do mundo..ou não fossem meus! (ouviste, destino??) :)
Hoje é dia de jantar português. Hoje vai haver bacalhau à brás, azeitonas e salada nos 30.ºC de SP.
Vai haver David Fonseca, Mariza, Pedro Abrunhosa e Vítor Espadinha à mesa.
E sotaques.
Para mais tarde recordar (com a saudade que já se adensa ao vislumbrar o instante da partida)
*
Foi assim. Devagarinho, devagarinho. Chegaste sem pedir, foste-te instalando sem que desse conta.
No início "era o verbo", in fact. As palavras, os sorrisos, os trocadilhos e os discursos incoerentes de quem não sabe o que aí vem. Depois tudo passou a um nível mais concreto. Sem castelos de ar. A areia foi passando, devagarinho, a pedregulhos que queriam construir uma fortaleza capaz de resistir às intempéries.
Depois vieram as intempéries. Umas mais fortes, outras mais suaves. E nós fomos aprendendo a passar cada uma delas. Ora flutuando, ora remando contra a maré.
Agora eu estou aqui e tu aí. Sentindo os ventos das marés, o sal das águas revoltas do Atlântico.
Agora os meses vão passando, arrastando-se. E nós aprendemos cada vez mais a ser, ao invés de estar,somente.
E isso é bom. Como a saudade. A boa :)
*
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